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quinta-feira, 13 de maio de 2010

O homem cordial e a tortura

Olá pessoal,

Li e compartilho com vocês...abraço, Nelson.


Por: Bernardo Ricupero*

O homem cordial e a tortura

Luiz Fernando Veríssimo chamou a atenção para a atitude do ministro Eros Grau, que, ao relatar a ação da OAB solicitando a revisão da Lei da Anistia, argumentou que tal medida se chocaria com o caráter cordial do brasileiro. O magistrado trouxe à baila, com seu voto, uma importante tese de Sérgio Buarque de Holanda: a do brasileiro como homem cordial.
O “homem cordial” é provavelmente o que mais chamou a atenção no livro de estréia do historiador paulista, “Raízes do Brasil”, publicado em 1936. É verdade que o próprio Sérgio Buarque fez questão de reconhecer que a expressão não era originariamente sua, mas do escritor Ribeiro Couto.
Mais sério, o termo “homem cordial” foi e continua a ser objeto de interpretações equivocadas. O autor de “Raízes do Brasil”, ao falar em “cordial”, pensou principalmente na origem etimológica da palavra, “o que vem do coração”. Ou seja, “cordial” pode tanto implicar amor como ódio. Tem, em outras palavras, igualmente consequências positivas como negativas.
Ao falar em “homem cordial”, Sérgio Buarque queria chamar a atenção principalmente para a dificuldade do brasileiro viver sob uma ordem impessoal, condição mesma para se ter democracia. No “homem cordial” confluem, de certa maneira, segundo “Raízes do Brasil”, duas das principais orientações presentes em nossa sociedade: a cultura da personalidade e a auto-suficiência do latifúndio.
Na primeira, apareceria como crença mais forte “o sentimento da própria dignidade de cada homem”. Oposto ao privilégio, poderia até ser considerado como pioneira da mentalidade moderna. Mas mesmo que estivesse disseminada por todo o povo, Sérgio Buarque considera que a cultura da personalidade é antes “uma ética de fidalgos, não de vilões”, cada homem considerando-se como superior ao outro e não como seu igual. Ou seja, seria possível perceber que valores associados à aristocracia estariam espalhados por todo o povo. Num ambiente como esse, seria difícil fazer vigorar solidariedade social, até porque “em terras onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável”.
Já o domínio rural auto-suficiente contribuiria para o aparecimento da família patriarcal. A família seria inclusive o único setor da vida brasileira cuja autoridade não era questionada. Assim, se teria “uma invasão do público pelo privado”, os indivíduos agindo de acordo com seus preceitos, mesmo fora do ambiente doméstico. Tal comportamento dificultaria o estabelecimento do Estado democrático e mesmo de qualquer Estado no Brasil. Até porque a relação entre a família e o Estado não seria tanto de continuidade, mas de oposição.
Do encontro da cultura da personalidade com o ambiente doméstico, hipertrofiado pela auto-suficiência do latifúndio, surgiria o “homem cordial”. Ele como que seguiria o ditado popular que proclama: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. O “homem cordial” seria, não por acaso, alguém capaz de realizar tanto atos de extrema generosidade como de crueldade inaudita.
Nessa referência, é possível considerar que a tortura, objeto da ação impetrada pela OAB, não está fora do universo do “homem cordial”. O que é irônico e, até triste, é que alguém que foi vítima da ditadura, como foi o ministro Eros Grau, seja capaz de defender que se passe por cima de tais atos ignominiosos em nome da “cordialidade” que nos caracterizaria.
Por outro lado, um raciocínio como esse é prova da força da ideologia e mesmo da prática da “cordialidade” no Brasil. Ou melhor, imaginar que a tortura possa prescrever ou, ainda pior, que, por precaução, não se deva mexer em feridas que ela suscite, é prova que ainda temos grande dificuldade de viver sob regras mínimas de civilidade. Talvez seja mais fácil imaginar que, como “homens cordiais”, sejamos capazes de perdoar, esquecer, mas, porque não dizer, também continuar a torturar.

*Bernardo Ricupero é cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo).
Referência: publicado em: http://colunistas.yahoo.net/colunistas/22/index.html, em 13/05/2010.

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